Vida de Torcedor

 

Acordo animado, é dia de jogo.
Abro a gaveta e lá está a minha camisa da sorte, não vou para nenhum jogo sem ela. Depois de algumas batidas para tirar a poeira e umas alisadas para tirar os vincos, visto-a com todo o prazer do mundo, junto meus pertences e vamos ao estádio.

Gente, muita gente. É reta final do campeonato brasileiro. Meu time ainda tem chances de ser campeão, nessa competição de pontos corridos importada da Europa. Brasileiro gosta mesmo é de mata-mata. Não importa, meu time ainda tem chances de ser campeão.
Lá estou eu, quase duas horas antes do jogo para comprar o ingresso, empurra aqui, empurra ali e chego perto da bilheteria. Faixa na entrada: não há mais ingressos para a arquibancada. Frio generalizado pelo meu corpo. Assistir o jogo das cadeiras numeradas, não, impossível, alegria é arquibancada, povão, torcida organizada com seu show de fogos, bandeiras e hinos. Tristeza, não numerada, não cadeira. Alguém chega do meu lado, camisa do meu time, comentários sobre a fim dos ingressos. Cambista, raça ruim. Mas é a arquibancada, eu preciso desse meu pequeno vício. Preço muito mais caro do que o oficial. Exploração eu gritei, ele vira de costas e vai embora. Não, meu irmão, vem cá, faz mais barato? Não, claro que não. Aqui estão os meus reais.

Esqueço o cambista, vamos para o portão. Mais um empurrão aqui, fila, catraca, revista policial. Por que não posso entrar com minha garrafa de água de plástico? Não pode, são ordens. Lembrei do curta do Furtado, “O dia em que Dorival enfrentou a guarda”. São ordens. Esqueço o policial e entro, já no caminho para as arquibancadas é possível sentir o estádio tremer, passam-se cinco minutos e o placar avisa: estádio lotado, quase vinte e três mil torcedores. É um espetáculo à parte, o canto do hino oficial, a bandeira gigante que cobre quase todos no meio da arquibancada, as vaias para o time visitante. É hora do jogo, rola a pelota, é jogo fácil, o time visitante é lanterna, está no papo, é só administrar e golear.

Metade do primeiro tempo, o jogo está tenso, o gol não saí, os jogadores estão presos, nada se cria. A torcida começa a ficar impaciente. Gritos de protesto até o final do primeiro tempo. Tudo bem, é só virar de campo e fazer a lição de casa, não precisa ficar nervoso. Intervalo, pipoca, sorvete, salgadinhos e água. É só um real. Tempo para sentar um pouco, sem moleza na arquibancada, são noventa minutos de pé, pulando e aplaudindo, muita água na garganta para agüentar os gritos. Começa a chuva, por que eu não comprei aquela capinha de apenas um real? Os torcedores se apertam, mas é inevitável o banho. Tudo bem, saio molhado, mas saio vitorioso.

Começa o segundo tempo, a torcida está nervosa, começa a vaiar os próprios jogadores. Fulanooooooo, comedor de farinha, toca essa bola direito. Presta atenção, volta para a baia seu pedreiro. É um jogo simples, é só fazer a lição de casa, calma, toque a bola e o gol sai. O gol não sai. Vai sair. Não sai. Gol. Gol do time visitante. Silêncio no estádio. Um garotinho começa a chorar, alguns torcedores gritam, esbravejam. Uma parte da torcida ensaia um canto de apoio, somos o time da virada. Vamos lá, nada está perdido.
A torcida grita mais alto, o tempo está passando, as cabeças olham para o campo e para o relógio. Vamos, vamos p... Começo a perder a minha paciência, o que esse jogadorzinho de merda está fazendo no meu time. As reações na torcida começam a ficar confusas, uns apóiam, outros protestam. Vai, vamos lá, eu ainda acredito. Quase sai o gol, goleiro desgraçado, vai, vai, ainda temos tempo, só quarenta do segundo tempo, vamos ao menos empatar. Vai, vai. Gol. Gol dos visitantes. Fico indignado, minha garganta dói de tanto gritar, xingar coisas que deixariam minha mãe de cabelo em pé.

Resolvo ir embora, a revolta é generalizada na torcida, começo a descer a arquibancada. Sinto um empurrão nas costas e logo gritos por toda parte. Alguém xingou alguém, alguém esbarrou em alguém, é briga. Alguém puxa minha camisa e escuto algo rasgar, solta porra, eu grito. Estou preso, não consigo descer nem subir de volta, a briga piora, gritos para parar e bater. Eu só quero sair daqui. A tropa de choque logo entra no meio para acabar com a briga, é impressionante como apenas alguns policiais bem fardados conseguem conter uma confusão daquelas, mas a briga persiste. Os policiais logo começam a distribuir borrachadas para todos os lados, um deles vem em minha direção e ameaça me bater. Calma amigo, eu não fiz nada, só estou descendo, não me bate. Pensou e não bateu. Depois de quase meia hora eu consegui me livrar da multidão.

Suado, rasgado, molhado e puto com o meu time. Tudo isso para ser derrotado. A derrota do time é a minha derrota também. Escuto alguém falar que isso estragou seu fim de semana, o meu também. Sinto ódio pelo meu time, que fez eu passar por tudo isso e uma vergonha. Saio do estádio e sento em uma mureta. Como eles puderam perder? Depois de alguns instantes eu levantei, fui até a bilheteria: por favor, um ingresso para o jogo da semana que vem.

Oque vc achou do site até agora?

dica

heverton(parabaixar.com.br) | 2010-03-15

pega no jutin tv os canais que passam jogos onlines e coloca no site ;D ta show o desing do site ^^
seu link já está no nosso site!

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